A cena repete-se: alguém tira as caixas, passa um sábado inteiro a ordenar por cores ou por jogos, deixa tudo impecável, e dezoito meses depois está outra vez com tudo remexido em cima da mesa. O trabalho não se perde porque a ordem fosse má. Perde-se porque a ordem vive só dentro das caixas, e assim que entra material novo deixa de refletir a realidade.
Uma coleção organizada a sério tem três camadas: um critério de ordem, materiais que conservem o estado, e um inventário que sabe o que tens sem abrir nada. A terceira é a que quase ninguém faz e a única que evita começar do zero.
Primeiro, decide para quê a ordenas
Não há uma ordem objetivamente melhor. Há uma ordem que responde bem à pergunta que tu fazes mais vezes. Estes são os três critérios que funcionam, cada um com o seu senão:
- Por jogo, expansão e número. É a ordem de catálogo. Encontras qualquer carta em segundos e vês num relance o que te falta de cada expansão. O senão: exige respeitar o sistema ao arquivar material novo.
- Por valor. As cartas caras à parte e bem protegidas, o resto a granel. É a ordem de quem compra e vende. O senão: o valor muda, e a ordem desatualiza-se sozinha.
- Por uso. Os baralhos montados de um lado, as cartas jogáveis do outro, o resto arquivado. É a ordem do jogador. O senão: não serve de nada para saber o que tens.
Se estiveres na dúvida, começa por jogo, expansão e número. É a única que se pode combinar com as outras duas: nada te impede de pôr à parte as vinte cartas caras e de ter os baralhos montados, desde que o arquivo grande siga a ordem de catálogo.
Os materiais, por ordem de importância
Aqui é fácil gastar a mais no acessório e a menos no que protege de verdade. A ordem de prioridade é esta:
- Protetores individuais (sleeves) para tudo o que tenha algum valor. É o mais barato e o que mais conserva o estado. As cartas sem protetor riscam-se só de as manusear.
- Binder de carregamento lateral. Os de carregamento superior deixam as cartas sair e dobrar-se pela margem. O lateral é uma mudança pequena com muita diferença.
- Toploaders ou cápsulas rígidas para as cartas caras, e sempre com a carta dentro do protetor. Nunca metas uma carta nua num toploader: risca.
- Caixas de armazenamento opacas para o material a granel. A luz direta desbota as tintas mais depressa do que parece.
Evita qualquer plástico que não diga explicitamente que é livre de PVC. O PVC degrada-se com os anos e deixa uma película pegajosa que estraga a superfície de forma irreversível. É o erro que mais coleções antigas arruinou.
Sobre o ambiente: temperatura estável, pouca humidade e nada de luz direta. Um armário no interior de casa é melhor do que uma arrecadação, uma garagem ou um sótão, por muito espaço que tenham. Os ciclos de calor e humidade empenam o cartão.
O inventário: a camada que muda tudo
Um inventário é simplesmente uma lista do que tens, em que versão e em que estado. Soa burocrático até o usares, e então resolve quatro problemas de uma vez:
- Repetidas. Deixas de comprar cartas que já tinhas porque não te lembravas.
- Falhas. Sabes exatamente quanto te falta para completar uma expansão, e quais são essas cartas.
- Seguro e herança. Se houver um roubo, um incêndio ou uma inundação, uma coleção sem inventário é uma coleção sem reclamação possível.
- Venda. Quando decides vender, não tens de começar por identificar carta a carta: já está feito.
O inventário é também o que faz a ordem física sobreviver. Quando sabes o que tens sem abrir a caixa, não precisas de desmontar tudo de cada vez que queres confirmar algo, e é justamente esse desmontar que dá cabo da ordem.
Como digitalizar sem que se torne eterno
Escrever à mão o nome, a expansão, o número e a variante de cada carta é o que faz as pessoas desistirem ao fim de duas horas. A forma de o evitar é trabalhar por lotes e não quebrar o ritmo.
- Trabalha por montes de uma mesma expansão. Mudar de contexto é o que cansa, não o número de cartas.
- Digitaliza primeiro o que mais te importa: as cartas com valor e as expansões que estás a completar. A primeira hora tem de te dar algo útil, ou não haverá uma segunda.
- Fotografa em vez de escrever. Uma foto identifica expansão, número e variante de uma vez, que é precisamente a parte lenta.
- Regista o estado enquanto tens a carta na mão. É o dado que depois ninguém volta a preencher.
- Sessões curtas e regulares. Meia hora duas vezes por semana adianta muito mais do que uma maratona de sábado que não se repete.
O TCGJoin está construído exatamente à volta desse passo: apontas a câmara à carta, ela identifica-se sozinha com a sua expansão e o seu número, e entra na tua coleção com o preço de referência e o progresso dentro da expansão. A parte aborrecida é a que se automatiza; o critério do que guardar e de como ordenar continua a ser teu.
Começa por um monte pequeno e vê quanto tempo demoras de verdade.
Experimentar o scanner de cartasA manutenção, que é onde se ganha
Um sistema que só funciona no dia em que o montas não é um sistema. Três hábitos chegam:
- Um tabuleiro de entrada físico. Tudo o que chega de novo vai para lá, não diretamente para o binder. Arquiva-se por lotes, não carta a carta.
- Arquivar e registar no mesmo gesto. Se a carta entra no binder mas não no inventário, o inventário já está quebrado.
- Uma revisão por trimestre: esvaziar o tabuleiro de entrada, confirmar que nada ficou solto e dar uma vista de olhos ao estado do que mais valor tem.
Com isto, a pergunta «o que é que eu tenho?» deixa de custar um sábado e passa a custar dez segundos. Que era, desde o início, o objetivo de organizar a coleção.